A História do Teatro Sá da Bandeira

O Melhor Teatro do Mundo

Foi em 1846 que o espanhol José Toudon Ferrer Catalon resolveu construir um barracão de madeira a norte da Rua de Santo António, próximo da Viela da Neta, para apresentar habilidades circenses com cavalos. O barracão, que o espanhol batiza de Teatro Circo, sofre obras de remodelação em 1854, mas quatro anos depois é demolido. A 22 de Março de 1858, dá-se início à construção de um novo circo, agora em pedra, projetado pelo arquiteto Pedro José de Oliveira, obra que ficaria concluída oito meses depois. O “novo” Teatro Circo disponha de 26 camarotes, 100 lugares de plateia superior e 400 lugares de galerias, num total de 630 espectadores. Segundo conta Henrique Duarte de Sousa Reis, “era o único teatro da cidade onde se permite o uso do charuto e cigarro”.

Quando a Câmara Municipal do Porto decide abrir a Rua Nova de Sá da Bandeira, do lado poente do teatro, eliminando a Viela da Neta, o circo de pedra deu lugar a uma terceira sala de espetáculos com capacidade para 1770 lugares distribuídos por duas frisas à boca de cena, 32 camarotes de primeira ordem, 26 de segunda, 650 cadeiras de plateia, 700 na galeria e 120 nas varandas, de acordo com a descrição publicada no Jornal de Notícias de 12 de Março de 1874, data de inauguração do espaço. O novo teatro, a que se chamou Teatro Circo Príncipe Real, tinha duas portas de entrada: a principal era pela Rua de Santo António (atual 31 de Janeiro), por um túnel arqueado que desembocava numa escadaria de acesso a um pequeno átrio, e a secundária que se fazia pela Rua Nova de Sá da Bandeira.

Ao longo dos anos, o Teatro Circo Príncipe Real brindou toda a cidade do Porto com inúmeros espetáculos de renome nacional e internacional, tornando-se num dos ícones da cidade. Com o advento da República em 1910, o Teatro Príncipe Real adopta o nome da rua para onde passa a ter a fachada principal, e passa a chamar-se Teatro Sá da Bandeira.

Foram exitosos os primeiros anos de atividades desta sala de espetáculos logo após a Instauração da República. “O público é caprichoso. Habituou-se a correr para aquele teatro e quer sejam as peças excelentes ou detestáveis, irrepreensivelmente desempenhadas ou do mais medíocre relevo cénico, as enchentes têm-se contado pelas representações. As casas estão vendidas com muitos dias de antecedência (…)”, escreve Ernesto Maia, em 1913.

Nos anos 20, várias companhias de opereta actuam no teatro. A companhia italiana de Léa Candini apresentou-se ali em várias temporadas, levado à cena operetas de Robert Stolz e Franz Léhar que muito agradavam ao público. Na década de 1930, a Companhia Portuguesa de Ópera Lírica, dirigida pelo compositor Pedro Blanch, vem ao Porto interpretar Rigoletto de Verdi, e as óperas de Pucini, Madame Butterfly e Tosca.

Nos anos 90, um concerto dos The Young Gods ficou na memória daqueles que encheram a sala. O Remix Ensemble, sob a direcção de Stefan Asbury realiza dois concertos no teatro do Porto em 2002. O primeiro deles, subordinado ao tema Música para filmes, acolhe a estreia mundial da obra Erupção- Suite para catorze instrumentistas e manipulação de imagens, de Luís Bragança Gil, encomendada pela Porto 2001.

Apesar da propensão natural do Teatro Sá da Bandeira para os espetáculos teatrais, nem por isso a música clássica abandona a sua programação. Nos anos 50, a Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto realizou ali algumas séries de concertos. Dos quatro Concertos Populares dirigidos por Frederico de Freitas, em 1953, ficará na história dos anais do teatro o  de 7 de Agosto, por ter sio tocada em primeira audição mundial  a obra Sinfonia per orchestra, de Fernando Lopes- Graça.

Em 1961, o empresário Vasco Morgado assumiu a exploração do Sá da Bandeira, com quem já trabalhava desde a década de 50, comprando a firma Rocha Brito & Vigoço lda. A sala de espectáculos voltou a viver momentos áureos na comédia e no teatro musicado e numa época em que as peças eram estreadas em Lisboa e só depois viriam para o Porto, a peça Daqui fala o morto, com Laura Alves e Vasco Santana, estreou no Sá da Bandeira em 1956. A peça Boa noite Betina, que subiu à cena em 61, e a versão portuguesa do drama O comprador de horas, da autoria do brasileiro Dias Gomes, com Paulo Renato e Rui de Carvalho, foram outros dos grandes êxitos da época em que o marido da Laura Alves geria o teatro.

A revolução de 25 de Abril de 1974 faz decair a popularidade do teatro da revista e da comédia, e o Sá d Bandeira ressente-se disso. A partir de 1975, e durante cerca de dez anos, passa a exibir cinema, mas um cinema “alternativo”, uma vez que são filmes pornográficos que enchem o cartaz cinematográfico da sala. Ainda assim, um grande espectáculo de variedade intitulado Noite de Portugal, em 1977, em que participavam vários cantores e actores portugueses, terminou com uma grande actuação de Amália Rodrigues, aplaudida de forma apoteótica.

A transição do séc. XX para o séc. XXI tenta injetar “sangue novo” ao teatro da Baixa. Em Junho de 1991, a Sociedade formada por Vasco Morgado Júnior e Manuel João Ribeiro, que geria o Sá da Bandeira, solicita à Secretaria de Estado da Cultura a concessão de um subsídio no montante de cerca de 200 mil euros (40. 000 escudos na moeda antiga) para realização em obras de renovação e conservação do teatro. O pedido foi indeferido a 11 de Setembro desse ano, com a justificação a recair na necessidade de realizar um estudo mais vasto relativo à rede de equipamentos culturais da cidade do Porto.

Desde 2006 que a programação se tornou ainda mais abrangente, os novos públicos, os concertos de música, as festas temáticas, marcam a passagem para um Teatro Sá da Bandeira mais moderno e ainda mais próximo do público.

As grandes apostas nos musicais infantis como Rent, Peter Pan, Fame, O Principezinho, Pinóquio, Ruca, Winks, A Grande Aventura do Pai Natal, e A Bela e o Monstro. No Stand Up Comedy nomes como, Fernando Rocha, Quim Roscas e Zeca Estacionancio, Rui Sinel de Cordes, e Luis Franco Bastos. Foram ainda produzidos espetáculos de Festivais de Tunas Académicas e de Teatro para Escolas com as peças Frei Luís de Sousa, Auto da Barca do Inferno, Falar Verdade a Mentir, entre outras, inseridas no plano nacional de leitura, sem deixar de continuar a apresentar as Comédias como O Guru, Filho da Treta, As mulheres não percebem, Lar doce Lar, os Comédia á la Carte, que proporcionaram a presença regular de atores como Herman José, Maria Rueff, Joaquim Monchique, José Pedro Gomes, César Mourão, Catarina Furtado, etc. O Teatro de Revista com os populares Fernando Mendes, Marina Mota, Carlos Cunha, José Raposo. Em 2014, Ruy de Carvalho foi homenageado nesta sala sendo exibida no átrio de entrada uma placa comemorativa, ficando ao lado de outras como as de Laura Alves, Camilo de Oliveira, Amália Rodrigues, Vasco Santana.

O Teatro Sá da Bandeira apresenta-se hoje em dia como um exemplo de equipamento cultural que ao longo dos tempos conseguiu acompanhar a evolução do mercado, ao nível de diversificação de oferta cultural, captação de novos públicos, exigências técnicas e de segurança, sem nunca colocar em causa todo o património físico e material que o compõe e que lhe confere a identidade própria no seio do panorama cultural da cidade.

Ao longo dos últimos anos a dinâmica de atividades tem assistido a um movimento crescente, destacando-se a realização no último ano de mais de 200 sessões de espetáculos com mais de 77.000 espectadores para público em geral.